Feijão com alho silvestre
Outro dia fui mexer no canteiro e vi um dente de alho brotando, indaguei se poderia ter vindo do composto da cozinha, então resolvi o enterrar para que pudesse crescer. Conforme os dias foram passando, percebi que o alho se desenvolvia, até que um dia veio a flor. Eram flores miúdas, poucas e delicadas, bem diferentes da flor do alho que estava pensando. Pois bem, cheguei mais perto e fiquei analisando: cheiro leve de alho, botões florais com traços de alho e um desenho muito parecido com o do nirá. E, por um momento, surgiu a sensação de que aquilo era, sim, alho, era um alho-do-mato. Fui correndo no livro do Kinnup* e busquei por alho. Lá estava ele, alho silvestre.
Naquele momento foi impossível não refletir na força de nossa intuição, na potência dos nossos registros diários, os mínimo detalhes que observamos em um simples traço. A humanidade começou a escrever a medicina das plantas e os conhecimentos que adquiriram da natureza, através da observação. E, hoje, com tanta informação e acesso, é fácil se distanciar desta sabedoria natural que nos habita.
Bora falar do alho que ele é ma-ra!
O alho silvestre era um alimento usado como tempero pelos tropeiros durante suas viagens. Achei interessante pois nasci aqui em Sorocaba, cidade que tem um histórico com o tropeirismo.
Bom, só sei que uma das primeiras coisas que fiz com este alho foi temperar um feijão. Receita simples, popular e muito tradicional na mesa brasileira. Usei o bulbo, as folhas e as flores. Dourei com azeite e misturei com o feijão que já estava começando a engrossar. Feijão, alho silvestre, azeite e sal. Só.
O alho silvestre, Nothoscordum gracile, tem odor e sabor bastante suave e agradável, não me lembro de quantos já arranquei pensando que fossem mato. A vizinhança deve pensar que largamos o jardim, pois já não tiro mais os alhos, eles nascem aos montes, são espontâneos. Se você ainda não experimentou, aproveita, nunca é tarde para descobrir os alimentos que sempre cresceram no nosso jardim. Você também encontra esta receita no meu livro Nossa Cozinha Vegetariana.
Feijão com alho silvestre
400 g de feijão carioca ou outro
1 alho silvestre com as folhas
Azeite
Sal
Deixe o feijão de molho por uma noite. Escorra e descarte a água do demolho.
Coloque o feijão demolhado em uma panela, cubra com água e leve ao fogo. Assim que iniciar fervura, abaixe o fogo e cozinhe por aproximadamente 60 minutos ou até o feijão ficar macio.
Pique o alho, incluindo as folhas, e doure no azeite. Despeje no feijão, adicione sal e mantenha em fogo baixo para engrossar o caldo. Se necessário adicione mais água até que o feijão fique bem grossinho.
Observação: Algumas variedades de feijão não fazem muito caldo. Neste caso você pode adicionar uma ou duas conchas dele já cozido no refogado de alho e amassá-lo com as costas de uma colher ou garfo, voltando o refogado de alho e feijão para a panela até, enfim, que engrosse.
*Livro: Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil, de Valdely Kinnup e Harri Lorenzi, Editora Plantarum. O alho está na p. 72.

